O Ventre que Dança

09-06-2021

O meu novo projecto é dedicado à Maternidade e à minha experiência pessoal como bailarina e futura mãe. Inicialmente irei partilhar a minha vivência pessoal na gravidez e o que fiz e ainda faço para viver esta fase em pleno, saudável e cheia de energia. Futuramente espero falar também sobre o parto, pós parto e maternidade. Além de estar imensamente feliz e cheia de Amor, proveniente da experiência em si e das maravilhosas hormonas que agora me regem, também me sinto muito realizada como bailarina.

Apesar de estar mais ausente das redes sociais, dos estúdios de dança e dos palcos devido à pandemia, não deixei de dançar, dar aulas e até realizar alguns eventos e espectáculos. A Dança Oriental revelou-se ser uma das minhas melhores aliadas nesta jornada. Sinto até que todos os movimentos que faço e ensino há mais duma década fazem parte natural do processo e estão em perfeita harmonia com todas as transformações do meu corpo. Quando danço o prazer amplifica-se! Eu sempre soube que seria assim mas agora sinto e vivo na própria pele. Existem diversos benefícios na prática da Dança Oriental para a saúde feminina, nomeadamente pélvica, o que ajuda na preparação pré e pós parto.

Por isso, por mais discreta que eu seja sobre a minha vida íntima, resolvi que devo testemunhar a minha experiência pessoal, rodeada de pessoas fantásticas e profissionais que me ajudam no processo para que eu atingisse dois objectivos: ter uma gravidez tranquila para o bem estar do meu bebé e continuar a dançar agora e sempre. O curioso é que não foi preciso equilibrar as duas coisas pois a dança já contribuiu para ter uns meses maravilhosos. O que iremos falar será igualmente útil para qualquer mãe, seja bailarina profissional, aluna ou não dance de todo. Irei partilhar conteúdos diversos em forma de vídeos, imagens e artigos/textos a falar sobre a minha viagem, consultando sempre profissionais e fontes fidedignas de informação. O que acham deste projecto? O que gostariam que eu partilhasse mais com vocês? Estejam atentos às minhas páginas, sigam-me e partilhem pois poderá ser útil a alguém próximo a vocês. Grata <3

A Dança Oriental e a Feminidade

Contexto e Mitologia 

A Dança Oriental (do árabe Raqs Sharqi e do turco Oryantal), conhecida como dança do ventre no ocidente, é uma dança com berço em diversas tradições nomeadamente do Médio Oriente, Norte de África e Mediterrâneo. Nos séculos XVIII e XIX, temos relatos de historiadores, aventureiros, "orientalistas", pinturas e obras biográficas a testemunharem danças em que se destacam os movimentos pélvicos e sinuosos da mulher, o isolamento impressionante de diferentes partes do corpo e a percussão meticulosa do mesmo ao ritmo da música tocada. O culminar da sua criação como a conhecemos hoje deu-se já no século XX mas, como qualquer forma de arte, tem-se modernizado, mesclado e estilizado de acordo com tempo, lugar e indivíduo que a pratica.
Há quem proclame a sua raíz cultural e artística em tradições ancestrais do Antigo Egipto, Mesopotâmia, outras grandes civilizações e posteriormente Impérios que se cruzaram neste espaço demográfico. Não temos evidências históricas concretas disso. No entanto, nos tempos ancestrais, e por todo o mundo, há indicadores de diversos rituais e danças que eram feitas em homenagem a deuses ou deusas, invocações à fertilidade ou como ritos que preparavam as mulheres para a maternidade.
Apesar da ausência de provas factuais sobre a história antiga da Dança Oriental, a oralidade preservou lendas e mitos que ilustram e retomam a importância de práticas e tradições ancestrais que eram utilizadas para realçar a beleza e saúde femininas. Ainda hoje se encontram algumas danças tradicionais, tribais ou folclóricas, até mesmo rituais nas mesmas zonas geográficas, com alguns movimentos idênticos aos utilizados na Dança Oriental e que têm, entre outras motivações, propósito semelhante. Independentemente da autenticidade destes indicadores sobre a sua origem e função, hoje em dia há estudos comprovados sobre os benefícios da prática de Dança Oriental para a saúde da mulher. E vamos agora falar sobre isso...

Os benefícios da Dança Oriental para a saúde feminina

Maternidade - gravidez, parto e recuperação pós parto


- Exercício físico de baixo impacto e risco, sendo possível praticar durante todas as fases da maternidade (mediante aprovação médica). Ver *𝑵𝑶𝑻𝑨𝑺

- Melhora a circulação sanguínea, o que ajuda na prevenção de diabetes gestacional e hipertensão arterial; consequentemente contribui para uma melhor nutrição e oxigenação da mãe e do bebé.

- Aumenta força, resistência, equilíbrio e flexibilidade, necessários nesta fase da vida mais exigente fisicamente; pode ajudar a prevenir problemas e dores na zona lombar, anca e até na dor do nervo ciático, muito comuns na gravidez. 

- Corrige a postura da nossa coluna e bacia o que minimiza todo o desgaste provocado pelo aumento de peso na gravidez (barriga e peito) e mudança de centro gravitacional.- Consciência Corporal, nomeadamente da zona do ventre (interna e externa) e quadril, devido à minúcia, pormenor e precisão de movimento desta zona do corpo. Esta consciência corporal poderá ser muito útil na altura do parto e na correcta execução de exercícios de preparação para o parto e na recuperação após. 

- Fortalece a musculatura interna da zona pélvica, core e especificamente o períneo de forma natural e orgânica. Diminui os riscos de incontinência urinária e contribui para uma actividade sexual mais confortável e prazerosa. Tal como poderá ser útil no desempenho durante o parto e recuperação pós mesmo.

- Estabelece laços humanos e sociais. Através das aulas de grupo ou simplesmente através das aulas particulares, a mulher sentir-se-á abraçada e integrada, tendo um espaço e momento para si, onde se sente bem e vive momentos de alegria e prazer que pode partilhar apenas com um professor ou com toda uma comunidade internacional. A Dança Oriental pode ser apenas um passatempo para alguns mas na maioria é um modo de vida que faz muitas pessoas felizes! Na gravidez é essencial a mãe sentir-se bem, descontrair e rir com outras pessoas. O bebé também vai beneficiar de todas essas sensações traduzidas em hormonas.

- Favorece a auto estima e bem estar. A Dança Oriental faz-nos sentir bem, seguras e confiantes do nosso corpo, assunto delicado durante a gravidez, devido a todas as alterações físicas e hormonais. A gravidez é um momento extremamente sensível a nível emocional, e só quem passou por isso sabe como é. A Dança Oriental é uma dança inclusiva e empoderadora, contribuindo para uma imagem saudável, natural e positiva da Mulher.

- A Dança Oriental e o Sagrado Feminino. Para quem procura uma visão mais holística, esta dança permite-nos conectar melhor com o nosso ser interno (quem vivência mais isso do que uma grávida?) de forma consciente e positiva. O simbolismo dos seus movimentos circulares e o estímulo do Swadhistana - também conhecido como o segundo charkra, chakra sexual ou umbilical - são alguns dos exemplos dos seus benefícios e influência na saúde feminina vista por vários prismas. 

*𝑵𝑶𝑻𝑨𝑺

Advirto que a prática da Dança Oriental durante a gravidez e pós parto, deve ser aprovada pelo médico e depende do tipo de gravidez. Por ser uma prática de baixo impacto não representa qualquer perigo, pelo contrário, contudo deve haver confirmação médica de realização de exercício nas diferentes fases. Normalmente não se aconselha a recomeçar novas actividades nunca antes praticadas nas primeiras 12 semanas de gravidez. Se pratica Dança Oriental há algum tempo, pode manter a actividade que já fazia anteriormente, mas nunca com mais esforço do que o habitual e sempre mediante aprovação médica. Convém explicar bem ao médico do que se trata, pois normalmente não têm ideia do tipo de exercício que é feito. Acima de tudo, tentem perceber como se sentem, leiam o vosso corpo e tudo irá fluir naturalmente. A Dança Oriental é considerado um exercício de baixo/médio impacto mas isto depende de como é praticada e que condição física da praticante estamos a falar. As profissionais, por exemplo, podem fazer movimentos e deslocações mais extremas, a nível de força, resistência e flexibilidade. Tudo isto deve ser tido em conta. Quando falamos em aulas regulares com alunos de níveis iniciados e intermédios, normalmente são apenas praticados exercícios e movimentos de baixo impacto. É preciso ter estas variantes em conta pois depende da carga e esforço do praticante.

𝐄𝐦 𝐬𝐮𝐦𝐚, 𝐚𝐬 𝐠𝐞𝐬𝐭𝐚𝐧𝐭𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐯𝐞𝐦 𝐭𝐞𝐫 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐚:

1) Se já praticavam Dança Oriental, (profissionais, amadores ou alunos) podem continuar a fazer o que faziam, com maior atenção às primeiras 12 semanas e nunca chegar a entrar em fadiga e extremos. As mudanças hormonais e físicas ocorridas durante a gravidez alteram o funcionamento do nosso organismo e capacidade de recuperação, além de que não podemos fazer muitos tratamentos nem tomar certos medicamentos.

2) Quem nunca praticou Dança Oriental, pode começar na gravidez, desde que informe o professor e que este tenha consciência de transmitir apenas exercícios de zero risco para a gravidez, e tenha aprovação médica. Evitar começar algo novo e diferente do habitual nas primeiras 12 semanas de gestação.

𝐅𝐨𝐧𝐭𝐞𝐬:

- Évolution de la force musculaire du plancher pelvien après exercices de type «danse du ventre», Amanda Pedroti, Cíntia Freitas, & Líris Wuo, 2010

- Maha Al Musa, Award Winning independent Childbirth Educator; https://mahaalmusa.com/belly-dancing-as-prenatal-exercise/https://www.pregnancy.com.au/belly-dance-your-way-to-a.../

- Benefits of Belly Dance in Childbirth Experience; Karisma Pathak, University of Massachusetts, 20

- New Labor Moves: Belly Dancing Hits Delivery Room, Rachel Zimmerman, The Wall Street Journal, 2007"Belly Dancing" and Childbirth, Morocco, 1964; https://www.casbahdance.org/belly-dancing-and-childbirth/

Agradecimento especial a Marcia Dib pela sua sabedoria e partilha de conhecimento e a Thais Baptista pelas preciosas dicas para um maior rigor na informação apresentada.